sábado, 14 de janeiro de 2017

CRÔNICA DA SEMANA_14_01_2017_THO HG

O ritual emblemático da passagem de ano

Se tem uma coisa lúdica nesse mundo, ela se chama a passagem de um ano para o outro. Ninguém vê e nem pode tocar, mas esperamos como se fosse um portal que se abre e nos leva do antigo mundo para o novo, com a esperança de que ao passar por ele tudo vai ser diferente. Mas para isso tem um ritual imprescindível, como fazermos contagem regressiva, soltar fogos, pular sete ondas na praia, estar vestido de branco e quando chega o ápice, o momento zero, à meia-noite em ponto, queremos logo ser a primeira pessoa a abrir os braços e desejar feliz ano novo a quem gostamos. Pelo menos comigo sempre foi assim. E com você?
A cada novo ano, logo no início, procuramos elaborar planos de como fazer para ser diferente no final. E quando o momento se aproxima percebemos que ficou quase tudo para cima, para a última hora e os atropelos são invitáveis. O do ano passado para este não foi diferente. Chegamos ao local desejado para ficarmos juntos em família já quase à noite. E corre pra lá, e corre pra cá, mas no fim deu certo. Como sempre deu! E no meio disso tudo não tive como não lembrar de quando era criança, quando meus pais faziam exatamente o mesmo ritual, e eu querendo ficar acordado para saber como era a tal mudança de um ano para o outro que todos os adultos tanto falavam.
Entre este e outros devaneios, lembrei-me também de um gibi da Turma da Mônica, em que a personagem Chico Bento, um caipira juvenil tinha essa mesma curiosidade de ver como era a mudança de um ano para o outro. Como disse e repito, é lúdico por demais. Por instantes me identifiquei com a personagem, que na trama dos quadrinhos tinha essa mesma curiosidade. Porém, à medida que cresceu ficou acordado para ver como era e não gostou do que viu: da tamanha loucura que é as pessoas pulando, bebendo, gritando, se abraçando efusivamente e extravasando os sentimentos, desejando tudo bom as pessoas que queremos bem e a nós mesmo, claro.
Muitos extrapolam e amanhecem o dia e o ano começa com os olhos vermelhos como se aquele fosse o primeiro e último dia do ano. Mas a maioria vai deitar um pouco mais tarde e aproveita o dia seguinte, que é também o Dia Mundial da Paz, e continuar degustando o que sobrou da noite do ano anterior. Para muitos este é sem dúvidas o melhor da festa, uma vez que já passou toda aquela ansiedade e já estamos em um novo ano.
O ritual da vida cotidiana é cíclico e a roda não pode parar. Prova disso que no dia posterior a vida volta ao seu ritmo normal de atividades e segue seu curso, com as mazelas políticas, econômicas etc. Mas temos também aquela capacidade de superação amparada nas alegrias das coisas boas que nos causam felicidades, como conseguir aquele trabalho melhor, estudar e, claro, os sonhos, de realizarmos e darmos aquela guinada na vida.
Uma coisa que não devemos fazer, é agir como o caipira Chico Bento, que ao ver tudo aquilo que lhe parecia estranho, deu meia volta, e retornou para a cama, e deixarmos de lada cada momento único, com ou sem explicações é o melhor, haja vista que passou, não volta mais.
Um brinde ao ano de 2017 que já começou, com ou sem encantos a vida real não tem regravações e como tal não vai parar para lamentarmos. Então, vamos pra frente que para trás não dá mais...

sábado, 7 de janeiro de 2017

REPORTAGEM_DA_SEMANA_07_01_2017_THO HG

Aos 83 anos, hoje o povo te abraça 
mais forte, Santa Izabel do Pará
Complexo esportivo: principal cartão postal da cidade, na entrada, sentido de quem vem de Belém.
Uma vasta programação artístico-cultural marca durante todo o dia de hoje (7) as comemorações de aniversário dos 83 anos de Santa Izabel do Pará. Localizada às margens da BR 316, o município é conhecido na região e até fora do país como a cidade dos igarapés, além da ampla vocação para o turismo ecológico e também pelas iguarias feitas a partir da farinha de tapioca. Seu povo mira o futuro sem abrir mão dos  valores socioculturais.
O clima de festa por parte dos cidadãos contrasta com a missão que seus gestores terão pela frente, que é superar ou mesmo minimizar problemas estruturais como saúde, segurança e geração de emprego, fazer com que os munícipes não se desloquem para outros municípios em busca de oportunidades.
Seu Itamar Fernandes Ribeiro, memorialista, escritor e ex-prefeito, no alto de seus 77 anos, não hesita em afirmar que “hoje não há muito o que comemorar. Houve um tempo que sim; mas hoje não! A cidade parou no tempo”. Ainda segundo ele, “nos últimos dez anos que o município começou a dar os primeiros passos para deixar de ser um centro agrícola, uma vez que o comércio vem procurando acompanhar e atender as necessidades do izabelense e de pessoas de outros municípios que aqui vem fazer compras”.
Esse misto de resgate da memória, preservação e desenvolvimento futurístico se funde com os valores culturais, sociais e familiares que se encaixa perfeitamente a um projeto estético chamado “izabelismo”, desenvolvido pelo jornalista e escritor Luiz Augusto Paixão (31) com um grupo de amigos. Para Augusto, aos 83 anos, Santa Izabel, tem muito o que comemorar, sim. “Mesmo o nosso povo não tendo muitas oportunidades aqui, a maioria vai e volta. Essa é uma marca que vem desde o início da sua história, mesmo com tantas adversidades, quem vai, em geral retorna, por ser o melhor lugar para se viver. Essa é a nossa grande marca”.

Convergência
“Uma prova do que falei anteriormente sobre a falta de oportunidades, com relação à geração de emprego e renda pode ser comprovada a cada quatro anos, como agora, você não pode nem circular pelos corredores da prefeitura e secretarias, toda cheias de pessoas em busca de uma ocupação, e esse local ainda é a Prefeitura”, exemplifica seu Itamar. O jornalista Augusto completa, “essa é uma marca das elites dominantes que se revezam no poder há décadas e utilizam este artificio com fins eleitoreiros. Para acabar com isso, o remédio é o exercício pleno da cidadania e a educação para tirar a cidade desse atraso e colocá-la no caminho do desenvolvimento pleno”. Porém, seu Itamar enxerga pontos positivos e avanços, a exemplo das culturas hortifrutigranjeiras, que juntas colocam a cidade como uma das mais bem assistidas, chegando, inclusive, a exportar seus produtos para outros estados, além de gerarem emprego e renda.
Foto 1, seu Itamar Fernandes; ao lado, na foto 2, o jornalista e escritor Luiz Augusto Paixão.
O que os define izabelense hoje?
“O senso de humor do izabelense como antídoto para superarmos as adversidades da vida cotidiana”, Luiz Augusto Paixão.
“Sou suspeito em falar. Para mim é o melhor lugar do Mundo. Digo isso porque o povo me deu a oportunidade de ser seu representante. Coisa que jamais havia imaginado. E por isso sou muito grato a Santa Izabel e ao seu povo”, Itamar Fernandes Ribeiro. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

CRÔNICA DA SEMANA_20_12_2016_THO HG

Entre bulas e receitas de bolo

Pela crescente onda de protestos e críticas direcionadas à classe política (ou a grande parte dela) que ocorre intensamente país afora tem como pano de fundo o não cumprimento do Artigo 5º da Constituição Federal. O qual diz “que todos sem distinção somos iguais perante a lei”. Um dos questionamentos se fundamenta pela distinção que há entre o poder exercido pelo povo e o exercido pelas autoridades constituídas. No tocante aos políticos, os do Legislativo têm a prerrogativa de criar leis e definir seus próprios salários, como também do Executivo e do Judiciário. É uma prática viciosa e perigosa semelhante ao enredo de novela das seis, em que o diretor coloca um bando de macacos para cuidar do bananal. Uma hora as bananas acabam. E quando isso ocorre, sobram apenas cascas e prejuízo. Como agora. E agora?
Não existe uma regra geral, uma vez que há exceções. Mesmo que raras. O que não é o caso de um antigo amigo; não sei se ainda é, pois ao entrar para a política ele me veio com essa pérola: “amigo, democracia só existe nas urnas”. Em partes ele tem razão. De fato, nossa frágil democracia funciona como bula de remédios. Como aquelas que vêm com o modo de usar escrito com letrinhas minúsculas (quase um teste para quem tem problemas na visão) na maioria das vezes não as lemos. Exceto quando nos automedicamos. Em geral, elas dizem uma coisa; e os médicos outra. Por analogia é como a gente ter que votar e escolher nossos representantes com uma intenção baseada em suas promessas; uma vez eleitos eles assumem outra forma de usar as leis e o poder em benefício próprio. E aí chegamos nesta queda de braço: mandamos leis de iniciativa popular para eles, e eles as desfiguram. Isso quando aprovam, como ocorreram com as Leis da Ficha Limpa e Anticorrupção.  
O escritor Rubem Alves diz que “a poesia é a ação do poeta na maneira de ver o mundo de forma diferente das demais pessoas. A beleza dessa ação chama-se metáfora”. Há sempre uma para cada situação. Claro, depende muito do poeta. Assim sendo, fica fácil de perceber que milhares de novos poetas estão surgindo e indo às ruas para contestar o país que é visto de forma dicotômica; bem diferente da que nossos representantes veem. Não há beleza alguma na miséria, na falta de médicos e remédios, de emprego, de renda... Para desnivelar ainda mais a balança, do lado do trabalhador, o Governo Federal congelou os investimentos por até 20 anos em setores vitais como saúde e educação. E assim, nesse continuísmo sem fim, nossos políticos seguem firmes a regra da receita de bolo: quando o orçamento mingua e falta fermento para aumentar suas fatias do bolo, a regra é aumentar a contribuição do trabalhador. Agora, até os idosos entraram na lista desses ingredientes. Com idade mínima de 65 anos para se aposentar vai precisar de muita sorte para usufruir deste benefício. 
Sem muito poder de reação, de nossa parte, o país sucumbe com a pandemia econômica que atinge a União, estados e municípios. Imersos em dívidas, quebrados, falidos, por teimosia de seus gestores que insistem na mesma receita: gastar mais do que arrecadam. Porém, na outra ponta da situação vemos a mesma prática viciosa há décadas. Gastança com assessores especiais, nepotismo, desvio de finalidades do dinheiro público, corrupção, sem falar nos aumentos desnivelados de seus salários e mordomias, aliás, muitas mordomias. Ai, chegou a conta, e como habitual, empurrada para o trabalhador. Ao longo do tempo o brasileiro vem aprendendo que o prato pode ser indigesto, aqui ou em qualquer lugar, mas o sabor, não. Para que isso ocorra, basta trocar de cozinheiro ou de restaurante. Nas ruas, nas redes sociais, nas igrejas e nas universidades ecoam vozes que querem de fato poder exercer o seu direito, que é trocar o cozinheiro-chefe, e assim podermos sentir o sabor dos direitos respeitados; do contrário, em breve não haverá ingredientes, e voltaremos à barbárie, como já acontece em muitos países latinos.
A língua é a beleza do mundo, capaz de aguçar nossa imaginação, de tingir pictoricamente um quadro denunciando as traquinagens dos que dela por meio de seus discursos vazios e sem fundamentos tentam furtar sua beleza. Não é lúdico que muitos políticos – sem generalidades – pensem o mundo pelo olhar de uma criança, em que todos os absurdos são permitidos. 
Não somos mais os mesmos. O país não é mais aquela creche de tempo integral em que os pais retornam ao fim do dia só para pegar os filhos sem se importarem com o que eles fizeram durante o dia. Por que, neste caso, o problema é da escola. Na nossa democracia é de todos. E dela temos que cuidar mesmo que não gostemos de política, é por meio dela que todas as decisões são tomadas e de alguma forma elas afetam o agora, o amanhã. Leiamos as bulas e ousemos participar adicionando outros ingredientes à receita, antes que o bolo simplesmente de fato acabe.

Por Haroldo Gomes

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

CRÔNICA DA SEMANA_15_12_2016_THO HG

Ontem fui à livraria


Algo de mais em ir a uma livraria? Depende! A resposta é relativa. Talvez seja porque não encontramos livros e livrarias em toda parte e muito menos um grande número de títulos como a que encontrei ontem. Fato é que entrei nessa viagem por acaso. Uma possível explicação seja o clima de fim de ano. Estava eu apenas acompanhando a família num passeio pela capital, e em dado momento minha sobrinha teimou em querer ganhar de presente um livro. Quando me dei conta estava em meio a eles, folheando-os com a mesma sensação que uma criança tem quando ganha um brinquedo.
Entre Nélidas, Ferreiras, Maxes Martins, Rubens Alves, Pessoas, Clarices, Veríssimos, e tantas outras obras de cânones da literatura brasileira minha decepção só não foi maior porque eles não tinham o preço expresso, como é comum nas livrarias que havia visitado até então. Quando indaguei ao vendedor, fui informado que era só passar o código de barras numa maquininha leitora próximo ao caixa. Por estar descapitalizado naquele momento, foi até melhor não saber mesmo.
Do momento da concepção à distribuição há um longo caminho que os livros percorrem até chegarem em nossas mãos. Acho que é por isso que não temos lá aquela habilidade com a leitura e com os livros. Além de caros, encontrar boas livrarias em nosso estado é como procurar agulhas no palheiro. Mas naquele momento único, em meio à procura do que nem sabia o que procurava me vieram alguns devaneios:
Um deles foi me perguntar por que meu livro ainda não estava ali, no meio daquelas obras? É, tenho um livro de crônicas revisado, diagramado, pronto para a impressão: é um apanhado de escritos ao longo de vinte anos em que me aventuro a escrever. Mas antes disso tem aquela barreira que é o lado financeiro; na outra ponta da situação tem ainda o mercado com suas burocracias que freia nossas intenções de materializar tais desejos. Pensamentos vãs, e eu, ali, encantado, pegando cada um deles como se pega um cristal fino com o receio quebrá-lo.
Naquele momento ímpar me veio também outras memórias, como o convite para fazer parte de Academia de Letras. E eu convicto com o propósito relutante de sempre, e reafirmo: sem obra, não existe escritor. Salvo engano após morte, que é quando surgem interesses e a coisa anda, enquanto o autor perece no túmulo. Todo grupo social tem suas vaidades veladas, e isso me fez lembrar do saudoso Ferreira Gullar que também resistiu muito até fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Ele devia ter os seus motivos, embora tenha escrito e publicado suas obras ao longo de sua vida. Mas, enfim, muita gente prefere o mérito sem ter algo que o justifique.
Depois de algumas horas percorrendo prateleiras, livros e mais livros, fui convidado a acordar com a sutil dica de que era hora de irmos embora. Tudo que é bom tem data de validade; a minha acabara ali. Ao menos por alguns instantes pude sonhar, reviver o encantamento de respirar livros, e descobrir nova opção quando puder adquirir alguns títulos para o meu acervo, ou como presente.
Imagino que você que leu até aqui certamente deve estar se perguntando: se eu não tinha dinheiro, como minha sobrinha saiu da livraria com o presente desejado? Bem, uma coisa posso adiantar: não furtei o livro, porém, informo-lhe que isso é assunto para outra crônica. Afinal, quem tem boca vai à livraria, e quem tem cartão pode debitar por dezenas de parcelas a perder de vista. Só não podemos perder o espírito natalino nessa época do ano e deixar um parente sem presente!

Por Haroldo Gomes 

sábado, 10 de dezembro de 2016

REPORTAGEM DA SEMANA_10_12_2016_THO HG

Redução salarial dos vereadores. Câmara garante que dará parecer ao Movimento de Ocupação nesta terça
O presidente da Casa, Sérgio Leal juntamente com o setor jurídico garantiu aos representantes do Movimento de Ocupação da Câmara que o parecer, seja contrário ou a favor, será dado nesta terça-feira, dia 13, quando ocorrerá a última Sessão Ordinária desta Legislatura.
O embate começou há quase de dois meses, quando os vereadores tentaram aumentar seus subsídios. Devido à pressão da opinião pública voltaram a trás e fixaram o teto em R$ 11.755,52. Porém, após a invasão do prédio da Câmara foi criado um movimento suprapartidário com representantes de vários segmentos sociais e profissionais que angariou mais de 40 mil assinaturas, o que redundou em um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que pede a redução dos proventos dos vereadores para 5 salários mínimos, o que equivale hoje a R$ 4.400 por mês.
Após a desocupação do prédio, as lideranças do Movimento vinham tentando reunir com a mesa diretora para cobrar um parecer e estabelecer uma data para o Projeto ir à plenário para votação. Todavia, o que percebemos é que não há nenhum esforço nesse sentido por parte dos vereadores. Dos parlamentares que ouvimos, apenas os que não se reelegeram é que mostraram algum interesse. Ouvimos também, advogados e ex-vereadores sobre o assunto, e todos foram unânimes: “como o projeto não onera as despesas do município, ele pode ser votado, a qualquer momento, inclusive no início do ano que vem. Para isso, basta que a mesa diretora tenha interesse”.
Segundo Ruth Lopes, do Movimento de Ocupação, “seja qual for o posicionamento dos vereadores, estaremos em peso à sessão desta terça-feira (13/12). Será um dia de grande movimentação em Castanhal e no país, por conta da segunda e última votação da PEC 55, no Senado. Da Câmara seguiremos para a concentração na Praça da Igreja Matriz, onde a partir 16h ocorrerá uma grande mobilização com apresentações artística-culturais. Quando Reafirmaremos nosso NÃO à PEC do retrocesso”.

Por Haroldo Gomes 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CRÔNICA DA SEMANA_26_10_2016_THO HAGAGÊ

A memória é o bilhete de passagem que permite viajar pelo tempo
Se você pudesse voltar no tempo e tivesse a oportunidade de rever e refazer algo que desse para mudar o final, o que você mudaria na sua história de vida? Viajar pelo tempo passado é um dos grandes sonhos do homem moderno (ainda muito distante). Se bem que outros ignoram o que passou e querem mesmo é ir logo ao futuro. Esse é um assunto que ainda vai gerar muita controversa.
Por enquanto, o que nos resta como recurso para deslocamento pelo tempo é a memória. Quem viveu e aproveitou cada momento da vida tem como ir ao passado facilmente. Para muitos é o que se chama de saudosismo. Assim, como recordar é viver, embora muitos prefiram completar o trocadilho com o verbo sofrer. Afinal, gosto não se discute. Acata-se.
Recorri a esta introdução por conta de que numa manhã de sábado recente, ao acordar, desloquei a mão para baixo do travesseiro para ver que horas eram. Então peguei aquele aparelhinho que mesmo quando a gente não quer sua presença, a necessidade o traz de volta para perto da gente. Amanhecer ouvindo uma boa música é relaxante, fundamental. Hábitos que só ocorrem aos sábados e nos feriados.
Queria ouvir naquela manhã um daqueles clássicos do Genesis que hoje só se ouve se tivermos um bom acervo, ou recorremos à rede. A canção abriu a porta do tempo que me levou aos anos 1980; justo naquela época em que para se ter acesso às músicas internacionais era uma agonia danada. Lembrei-me também de onde tudo partiu: da Rádio Modelo FM. A primeira rádio local que entrou no ar em fase experimental em meados de 1981, e em definitivo no ano seguinte. Tudo que é novo mexe de alguma forma com nossos brios. Para não depender da rádio que tocava as mesmas músicas uma ou duas vezes ao dia (a espera era num martírio). O jeito, então, era recorrer à tecnologia disponível na época: a fita k7, onde gravávamos as preferidas, e, assim, ouvi-las quantas vezes desejássemos.
Mas nem sempre esse processo ocorria como pretendíamos. Em geral, no meio das músicas a rádio soltava uma vinheta, o que jogava por terra todo o trabalho. A ação é conhecida até hoje por “queimar a música”. Se a fita fosse de boa qualidade podíamos regravá-las muitas vezes. Anos depois chegou a Castanhal uma loja chamada Musical Magazine. Era o point. Os vinis com aquelas capas antológicos era uma redenção para quem apreciava boa música, mesmo que não tivesse um toca discos. A sacada era procurar os amigos que tinham uma e a viagem passava a ser coletiva. A loja era o reduto para se conseguir também gravar as músicas sem as tais vinhetas. Quando não haviam os discos desejados, a gente encomendava. O que levava até um mês para chegar.
Com o celular em mãos e a música de fundo refleti o quanto ele contribuiu para mudar nossas rotinas. Cheio de recursos tecnológicos, como armazenar, baixar e compartilhar músicas, não é nenhuma máquina do tempo capaz de nos transportar por ele; porém, ajuda-nos com extrema facilidade a encontrar aquela trilha sonora que estrelou grandes e bons momentos de outrora. Ação que por si só já é uma vagem. Quanto ao tempo, passado ou futuro, isso depende do passageiro.
Por Haroldo Gomes 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

CRÔNICA DA SEMANA_14_10_2016_THO HAGAGÊ

As vozes das urnas

Por: Haroldo Gomes 
As eleições para escolha de representantes de cargos eletivos é uma das poucas e raras ocasiões em que o eleitor-cidadão de fato tem seus direitos resguardados através do voto. Embora ainda seja obrigatório em nosso país. Um contrassenso desde que o país reencontrou o caminho da democracia e passou a ter eleições diretas. Em cada uma delas fatos novos vêm ocorrendo. Com a deste ano não foi diferente. E foram muitos...
Passado o pleito, enquanto a maioria dos eleitos já monta suas equipes de governo e de transição, outros afinam o discurso de posse e a beca para sair bem na foto oficial. A exceção é a capital, Belém, onde haverá segundo turno para a escolha do prefeito para os próximos quatro anos. Porém, as lições deixadas ainda vão demorar para serem digeridas, principalmente por parte de quem foi vencido. Daqui a quatro anos o ciclo se abre outra vez. Se não houver mudança na lei até lá, metade desses imbróglios cai por terra, já que não teremos mais reeleição.
Embora tenhamos ouvido falar veementemente através da imprensa a respeito da suposta reforma eleitoral, ela nos parece ainda muito utópica. Com ampla incapacidade de coibir que candidatos presidiários concorram e tenham que ser escoltados e algemados em camburão da polícia até o local de votação; outros, respondendo a processos criminais ou na Lei da Ficha Limpa. Em meio a essas e tantas outras mazelas muitos se elegeram. De olho no poder, na influência, no foro privilegiado, até o crime organizado se faz representado ‘legalmente através da política’ a partir de primeiro de janeiro de 2017 por meio das inusitadas vossas excelências.
Em muitos municípios país afora o capital financeiro continua a fazer a diferença e a desequilibrar a balança ao influenciar o eleitor na hora de apertar o botão da urna. A prática do Voto do Cabresto hoje está mais para escambo – devido à mão ausente do estado em vários setores, dessa forma expõem as necessidades básicas que são trocadas pelo voto. Dessa forma, abrem-se caminhos para que muitos espertos se aproveitem deste artifício para negociar o voto e, consequentemente, se eleger -. Por outro lado, vimos o crescente aumento dos votos brancos, nulos e abstenções, uma clara sinalização de que se nada for feito, muito em breve chegará o momento em que apenas os candidatos, seus familiares e agregados irão votar; o que não impedirá que eles se elejam mesmo assim. É preciso refletir!
E as pesquisas de intenção de voto? Em alguns cenários, nem mesmo elas conseguiram reverter a vantagem em favor dos vencedores. O que deixou velado mais uma vez que eram apenas farsas. Por outro lado, continuam surgindo institutos de pesquisas de véspera de eleições espalhando-as com claras intenções: induzirem os leitores indecisos - que ainda votam nos candidatos que estão na frente. Três exemplos claros ocorrerem em Belém, Castanhal e Santa Izabel. Onde as pesquisas erraram feio!
Nesse emaranhado de fatores adversos, muitos escapam aos nossos olhos e compreensão. Vimos candidatos sem palanque, sem muito dinheiro, só com a força de vontade e a ajuda cada vez mais voraz das redes sociais desbancarem grandes e tradicionalíssimos candidatos, e consequentemente suas campanhas milionárias. Tudo isso vem reforça que algo está mudando. É muito pouco e quase imperceptível a olho nu, todavia, já nos servem de alento que apontam na direção de uma democracia mais justa e participativa, de fato e de direito.
Ainda é muito cedo para fazer afirmações pontuais a respeito desse tema. Afinal, em se tratando de política, tudo muda em fração de milésimos de segundos, de um candidato para o outro... Quanto aos ensinamentos deixados pelo pleito mais recente, é uma sinalização de que se quisermos as coisas podem mudar, como o de desconstruir o batido clichê que teima em dizer que “nesse país não se faz política sem dinheiro”.
As antigas práticas coronelistas estão sendo superadas aos poucos. Nas cabines de votação seus serviçais podem votar em quem quiser. Inclusive em branco. Se essa prática virar cultura, enfim, poderemos passar a limpo um passado enlameado por práticas abomináveis. Ainda não é a resposta definitiva, mas já sinaliza mudança de atitude e de postura política. Daqui a dois anos teremos novas eleições e poderemos aferir se o exercício da mudança vai continuar!